sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

"Sartoris", William Faulkner

"Sartoris" (1929), de William Faulkner, publicado pouco antes de "O som e a fúria", já adiantava, temática e formalmente, o que viria a ser a considerada obra-prima do escritor. O romance focaliza uma família - os Sartoris - de passado escravocrata e que, já tendo gozado de glória e de respeito, vive, nos dias atuais, sua decadência - o que se repetiria em "O som e a fúria" com a família Compson. O Bayard Velho, filho do prestigiado coronel John Sartoris, e a tia Jenny, irmã mais nova do coronel (mas já com oitenta anos), vivem em uma casa cheia de ausências e de lembranças. Os outros dois Sartoris vivos são os netos gêmeos do Bayard Velho: o jovem Bayard e John. Gabriel García Márquez, leitor e admirador de Faulkner - a quem chama de mestre - teria citado três livros como grandes influências para a escrita de "Cem anos de solidão": a Bíblia, "As mil e uma noites" e "O tempo e o vento"; mas é evidente que, apreciando tanto o escritor norte-americano, sua obra tenha sido por ele influenciada; como veríamos depois em "Cem anos de solidão" - e de maneira muito mais intensificada -, os nomes, em "Sartoris", estão sempre se repetindo, gerando uma espécie de herança (aqui, não genética, mas de personalidade) aos novos membros da família, o que, é evidente, cria um movimento circular na narrativa, como se nascer um Sartoris já definisse o destino das personagens. Já no final do livro, Faulkner escreve: 

"[...] O jasmineiro emitia ondas de aroma; os pardais agora estavam mudos, e a srta. Jenny falava no crepúsculo sobre o pequeno Johnny enquanto Narcissa tocava absorta e desatenta, como se não estivesse ouvindo. Então, sem parar de tocar e sem volver a cabeça, ela disse:
"Não é John o nome dele. É Benbow Sartoris."
"O quê?"
"O nome dele é Benbow Sartoris", repetiu ela.
A srta. Jenny ficou imóvel por um instante. No aposento ao lado, Elnora movia-se de um lado para o outro, pondo a mesa para o jantar. "E você acha que isso vai fazer alguma diferença?, indagou a srta. Jenny. "Você acha que pode mudar algum deles com um nome?"
[...]
"Você acredita", repetiu a srta. Jenny, "que só por que recebeu o nome de Benbow ele não vai ser tanto um Sartoris e um estouvado e um tolo?" (p. 408, edição da Cosac Naify, tradução de Claudio Alves Marcondes)

O jovem Bayard e John vão para a Primeira Guerra Mundial, mas apenas o primeiro volta para casa, não apenas sem o irmão, mas com a imagem da morte dele constantemente se presentificando. Depois da experiência da guerra, e com a ausência do irmão, viver se torna insuportável para o jovem Bayard. Principalmente em um lugar - tanto sua casa, no condado de Yoknapatawpha, como na própria escrita de Faulkner - em que o tempo não passa, se arrasta lenta e sofregamente:

"Quando fechou a porta ao sair, Bayard tirou o paletó, os sapatos e a gravata, desligou a luz e estendeu-se na cama. O luar filtrava-se impalpável pelo quarto, refletido e difuso; nenhum som perturbava a noite. Além da janela erguia-se uma cornija em uma sucessão de degraus rasos, destacando-se de um céu opalino e sem dimensões. A cabeça dele estava desanuviada e calma; o uísque que havia bebido estava completamente neutralizado. Ou antes, era como se a cabeça dele fosse a de um Bayard que jazia em uma cama estranha e cujos nervos apaziguados pelo álcool se irradiavam como filamentos de gelo através daquele corpo que teria de arrastar para sempre em um mundo estéril e desolado. 'Maldição', exclamou, deitado de costas, olhando pela janela onde não havia nada para se ver, esperando pelo sono, sem saber se ele viria ou não, sem dar a mínima para qualquer uma dessas possibilidades. Nada para se ver, e a longa, longa trajetória de uma vida humana. Três vintênios e um decênio para arrastar um corpo obstinado pelo mundo e atender a suas insistentes demandas. Três vintenas e dez, dizia a Bíblia. Setenta anos. E ele tinha apenas vinte e seis. Pouco mais de um terço completado. Maldição." (p. 171-172)

E a narrativa de Faulkner faz o tempo se arrastar, com parágrafos inteiros com descrições das plantas no jardim da srta. Jenny, do perfume das plantas pela manhã, da luz do sol se infiltrando na sala do piano, do pó sobre os móveis... ler Faulkner é uma experiência separada do espaço e do tempo comuns. Para tentar fugir disso, o jovem Bayard passa o livro dirigindo carros em altíssima velocidade pelas estradas do condado, em busca de seu destino, assistido por todas as personagens, principalmente pela tia Jenny, que é quem vai sustentando a narrativa com sua memória que conjuga o passado e o presente dos Sartoris (em sua circularidade), e com seus comentários extremamente ácidos:

"A srta. Jenny agradeceu-lhe com mordacidade a solicitude e atreveu-se a dizer que Bayard estava bem: ainda um membro ativo da chamada raça humana, isto é, considerando-se que não haviam recebido nenhum relatório oficial do legista. Não, não recebera nenhuma outra notícia dele desde que Loosh Peabody ligou às quatro da tarde, dizendo que Bayard estava a caminho de casa com a cabeça quebrada. Quanto à cabeça quebrada ela não tinha a menor dúvida, mas à outra parte da mensagem ela não dera o menor crédito, tendo convivido com os malditos Sartoris por oitenta anos e sabendo muito bem que o último lugar no mundo em que um Sartoris com a cabeça quebrada pensaria em voltar seria para casa." (p. 163-164)

Se as personagens femininas em "O som e a fúria" são relapsas, ausentes, caladas e/ou excluídas, em "Sartoris" é uma personagem feminina, a srta. Jenny, a guardiã da história, dos Sartoris e de Faulkner - e com um senso de humor que garantiu que ela já se tornasse uma das minhas personagens preferidas de 2014. E ela reaparece em "Santuário" (1931), assim como Narcissa, esposa do jovem Bayard, e seu irmão Horace; mas, como "Santuário" se passa dez anos após o final de "Sartoris", a srta. Jenny já está com noventa anos, e sua acidez já se encontra mais abrandada, embora nem tanto. "Santuário", uma história com uma veia de mistério - que também se passa no condado de Yoknapatawpha -, se aproximaria mais do conto "A Rose for Emily", mas apresenta personagens tão perturbadas quanto qualquer personagem de "Sartoris" ou de "O som e a fúria". E "Santuário" nos mostra que em Yoknapatawpha tudo pode acontecer, assim como, por exemplo, em Macondo.

domingo, 3 de novembro de 2013

"O som e a fúria", William Faulkner

Já dizia Tolstói: "Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira.". Para o livro de Faulkner, o adjetivo "infeliz" pode ser substituído, por exemplo, por "problemática", "destrutiva" ou "decadente". Como afirma Jason (um dos personagens do romance) em determinado momento: "A senhora ia pular pra fora da cova ah se não ia. Eu digo, não obrigado mulher é coisa que não me falta se eu me casasse eu ia acabar descobrindo que ela era viciada em droga, sei lá. É a única coisa que ainda não teve nesta família, eu digo." (p. 271)
A história de "O som e a fúria" (no original: "The Sound and the Fury"), publicado pela primeira vez em 1929, pelo escritor estadunidense William Faulkner, é centrada em uma tradicional família aristocrática do sul dos Estados Unidos, os Compson. A família Compson é formada por Jason Compson, sua mulher, Caroline Bascomb, e seus filhos: Quentin, Candace (Caddy), Jason e Benjamin (Benjy, nascido Maury); além desses personagens, mora na propriedade uma família de negros que trabalham para os Compson, cuja matriarca, Dilsey, é a testemunha direta da destruição da família. Também há tio Maury, irmão de Caroline, e Quentin, filha bastarda de Caddy. 
Mais especificamente, acompanhamos a narração do declínio e da dissolução dessa família em quatro partes, cada uma narrada por uma voz narrativa diferente, que o leitor vai identificando aos poucos:

Primeira parte: 7 de abril de 1928 
Narrador: Benjamin Compson
Segunda parte: 2 de junho de 1910
Narrador: Quentin Compson
Terceira parte: 6 de abril de 1928
Narrador: Jason Compson
Quarta parte: 8 de abril de 1928
Narrador: de 3ª pessoa que focaliza Dilsey

No entanto, os acontecimentos narrados não se resumem aos acontecimentos desses quatro dias específicos, porque os narradores fazem saltos significativos de tempo e mesclam, o tempo todo, o momento presente com diferentes e inúmeros momentos do passado, em uma técnica narrativa conhecida como fluxo de consciência, na qual se evidencia o processo de pensamento dos personagens, e que, portanto, se constrói sobre suas associações, suas analogias (por exemplo: um determinado fato presente pode lembrar ao personagem um fato da infância); como essas associações são muito particulares do personagem (que é quem tem as lembranças), nem sempre o texto fica claro para o leitor, o que contribui para que o leitor viva, ao ter que lidar com essa narrativa caótica, o caos vivido pelo próprio personagem. Muitos acontecimentos serão narrados mais de uma vez, sob diferentes pontos de vista, e é na junção das quatro partes que vai se montando um retrato mais completo sobre os Compson; desse modo, da mesma maneira que os personagens têm suas memórias, me parece que há uma memória do próprio livro, pois o leitor vai resgatando a todo momento trechos anteriores enquanto a narrativa segue. E cada uma das partes tem um tom particular, que condiz com a vivência do narrador em questão, e a última parte - narrada em terceira pessoa - apresenta uma narrativa mais simples, mais linear, menos fragmentada; depois de experimentarmos (na estrutura narrativa) a fúria compsoniana de ser, nos é oferecido um relato, um registro exterior dessa família, pelo único narrador que não vive naquele ambiente e naquela família conturbada. O personagem focalizado nessa última parte por esse narrador de terceira pessoa é Dilsey, a testemunha do declínio dos Compson:

"Dilsey não emitia nenhum som, seu rosto não tremia enquanto as lágrimas desciam em sulcos profundos e tortos, caminhava de cabeça erguida, sem querer esboçar nenhuma tentativa de enxugá-las:
'Para com isso, mãe!' disse Frony. 'Todo mundo olhando. Daqui a pouco a gente vai passar na frente dos branco.'
'Eu vi o primeiro e o derradeiro', disse Dilsey. 'Não preocupa comigo não.'
'Primeiro e derradeiro o quê?' perguntou Frony.
'Não preocupa não', disse Dilsey. 'Eu vi o princípio, e agora eu vejo o fim.'" (p. 327)

A história é cheia de dramas, de conflitos, de embates, de ódio; há situações chocantes - mais chocantes ainda quando se passam com pessoas de uma mesma família; os personagens são tanto autodestrutivos como destrutivos uns aos outros; e a consciência dessa estrutura familiar conturbada acompanha os personagens:

"Cheguei à rua, mas os dois haviam desaparecido. E lá estava eu, sem chapéu, como se eu também fosse maluco. E quem me visse podia muito bem pensar: um é maluco, o outro se matou afogado, a outra foi posta no olho da rua pelo marido, então todos eles devem ser malucos, mesmo. O tempo todo eu via as pessoas me olhando, como quem olha um gavião, aguardando uma oportunidade de dizer: Bom, não me surpreende, eu já esperava isso, a família toda é maluca. Vendem terra para que o outro possa estudar em Harvard, pagam imposto para sustentar uma universidade estadual que eu nunca vi, fora umas duas vezes em partidas de beisebol, e não deixam o nome da filha ser pronunciado na casa até que depois de um tempo o pai nem vinha mais ao centro, ficava o dia inteiro sentado ao lado da garrafa, eu só via as fraldas da camisola dele e as pernas nuas e ouvia o barulho da garrafa contra o copo até que no fim T.P. tinha que pôr a bebida no copo para ele e ela diz: Você não demonstra respeito pela memória do seu pai, e eu digo: Não vejo por que não ela está muito bem preservada e vai durar bastante [...]." (p. 256)

Eu confesso que tive dificuldade de entrar no texto, porque ele não é límpido, não é fluído, não é fácil, mas, indubitavelmente, ele é um esforço que compensa, e o prazer da leitura - em grande parte causado pela forma e pelo estilo utilizados por Faulkner - supera os obstáculos, que não são obstáculos negativos, mas intensificadores da grandiosidade do livro. Além de ser difícil encontrar um fio condutor narrativo, os acontecimentos não são explicitamente revelados, nem completamente explicados, nem mesmo concluídos, o que gera uma sensação de que o texto está inacabado, mas não em um sentido ruim, como sinônimo de incompleto, pelo contrário, o texto acaba por extrapolar sua própria arquitetura, tornando-se coisa viva. Ainda na questão de o livro deixar muito em aberto: Faulkner criou uma das personagens femininas mais intrigantes da literatura: Caddy. Caddy é personagem de suma importância na narrativa; ela é essencial para que os irmãos hajam da maneira que agem, para que eles sejam da maneira que são; ela é uma peça fundamental na história; no entanto, é a única filha que não narra - e, embora isso seja frustrante, contribui para a infinidade de possibilidades do texto, porque não havendo sua visão registrada, sua história particular se torna ainda mais instigante e ainda mais desejável. Da mesma maneira que Caddy é largada pelo marido e, posteriormente, excluída da própria família, também lhe é proibido contar sua própria versão dos fatos, e, assim, Caddy permanece para sempre afastada e calada.

"'É, você deve mesmo estar muito sensibilizada, vindo pra cá escondida assim que ele morreu. Mas você não vai ganhar nada com isso. Não fica pensando que você vai se aproveitar dessa situação pra voltar pra cá. Se você não consegue ficar no cavalo que você tem, o jeito é andar a pé', eu digo. 'Lá em casa a gente nem conhece o seu nome', eu digo. 'Sabia disso? A gente nem conhece o seu nome. Seria melhor pra você se você estivesse lá embaixo junto com ele e o Quentin', eu digo. 'Sabia disso?'" (p. 224)

Quando comecei a ler o livro, minha sensação imediata foi de que eu era uma intrusa em um ambiente familiar. E, sendo intrusa, eu não conseguia entender o que estava acontecendo, porque a cena já estava em andamento quando eu adentrei aquele ambiente. E eu me senti assim por muito tempo, chegando até a comentar a dificuldade pela qual eu estava passando com um amigo, que me respondeu: "O primeiro capítulo realmente é um desafio. É mais ou menos igual o amor, mas sem a possibilidade de se decepcionar.". Sábio amigo.

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E eu acho importante registrar, também, que, apesar de toda a tragédia e apesar de toda a desgraça, há inúmeras imagens belíssimas no texto. Faulkner captura momentos belos no exato momento em que eles alcançam o máximo de sua beleza e os eterniza no registro da escrita. Enfim, "O som e a fúria" é um livro genial, por qualquer prisma que se o aborde.

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No blog "Um túnel no fim da luz", Kelvin Falcão Klein escreveu três textos interessantes sobre os leitores de Faulkner.

1) Leitores de Faulkner

2) Leitores de Faulkner, 1

3) Leitores de Faulkner, 2